A vida e o legado de uma liderança singular no sul da Bahia
A história de Itabuna encontra um de seus capítulos mais fascinantes na trajetória de José Soares Pinheiro, carinhosamente conhecido como Pinheirinho. Antes mesmo de consolidar seu nome na esfera pública, ele demonstrou uma notável visão empresarial ao perceber o potencial da nascente indústria automobilística brasileira. Com pioneirismo e espírito desbravador, fundou a empresa J. S. Pinheiro e Irmãos ao lado de Rafael, David e Gabi, estabelecendo uma agência da Willys na cidade. Esse faro apurado para os negócios pavimentou o caminho para uma atuação marcante no desenvolvimento estrutural da região cacaueira.
Durante a década de 50, o engajamento cívico do empresário ganhou contornos práticos e corajosos diante dos desafios locais. Com a perturbação da ordem pública pelo banditismo, ele assumiu a linha de frente, chegando a pegar em armas para restaurar a paz local e auxiliar o trabalho da polícia ao lado de figuras como Zeca do Porco, Tote Pinheiro e Daniel Rebouças. Além da segurança, sua mente voltada para o progresso foi fundamental na criação de pilares institucionais da região, participando ativamente da fundação da Ceplac, do Rotary local, da Associação Comercial e da antiga Guarda Noturna de Itabuna.
O ano de 1966 marcou sua entrada definitiva nos grandes embates eleitorais, momento em que disputou a prefeitura municipal contra José de Almeida Alcântara. A partir desse cenário, cristalizou-se um estilo de liderança muito particular, bastante distante das práticas populistas tradicionais de sua época. Ele transitava com maior desenvoltura nos circuitos de decisão fechados e nas cúpulas, ausentando-se frequentemente das grandes festas populares, como o Carnaval ou o São João. Sua abordagem focava na estratégia e na articulação de bastidores, preferindo a objetividade técnica ao apelo direto das massas nos bairros periféricos.
Apesar de manter uma postura reservada, vista por alguns de seus contemporâneos, como Farid Maron, como hermética e propensa ao convívio fechado, sua credibilidade era inquestionável entre seus pares. A palavra dada por ele possuía o peso absoluto de um contrato assinado, característica que lhe rendeu o respeito duradouro de aliados e até de adversários. O ex-presidente da Associação Comercial de Itabuna e seu amigo confidente, José Carlito dos Santos, reforçava essa lealdade irrevogável aos compromissos assumidos. No meio político e empresarial, todos sabiam que ele era alguém que "quando dizia que ia fazer, fazia mesmo".
A força de suas convicções e de sua presença inspirou a consolidação de um movimento próprio, batizado naturalmente na região como “pinheirismo”. Diferente do discurso político habitual das províncias, muitas vezes curto, demagogo e sensacionalista, ele possuía um embasamento ideológico sólido e uma visão internacional apurada. Como vereador e presidente de diversas instituições, incluindo o Conselho Nacional dos Produtores de Cacau, discursava de forma didática e profunda sobre as causas que levantava. Sua atuação ocorria a partir de uma ótica estrutural, guiando as diretrizes políticas de cima para baixo.
A independência de caráter de Pinheirinho ficou amplamente evidente durante sua passagem pela presidência do Instituto de Cacau da Bahia. Em um episódio marcante de recusa a qualquer tipo de subserviência, ele abriu mão do cobiçado cargo após receber telefonemas classificados como desaforados de Antônio Carlos Magalhães. As tentativas de conciliação promovidas pelo então governador João Durval foram insuficientes para alterar sua decisão final. Ele preferiu abandonar a cadeira no poder a comprometer sua dignidade, consolidando sua imagem de homem resoluto, forte e insubmisso aos caprichos de instâncias superiores.
No início dos anos oitenta, assumiu o comando do diretório municipal do Partido Democrático Social, na época a maior legenda do ocidente, mergulhando em uma rotina de estudos em seu escritório na avenida Ibicaraí (que atualmente chama-se Av. J. S. Pinheiro, em sua homenagem). Longe dos holofotes, ele se debruçava sobre relatórios, números econômicos e dados estatísticos para compreender a complexidade do momento e se atualizar. Ele assumiu com lucidez os riscos de liderar o partido em um período de transição impulsionado pelo governo do presidente Figueiredo. Convivendo com o fim do Ato Institucional Número Cinco (AI5) e a anistia, compreendeu a necessidade de adaptação ao novo cenário de abertura democrática.
Essa capacidade de leitura atenta do cenário nacional resultou em uma notável evolução política no intervalo compreendido entre os anos de 1970 e seis e 1981. O líder deixou de lado antigas radicalizações, sepultou o passado político sobrecarregado de mágoas e buscou ativamente a via do diálogo. Com sabedoria, estendeu as mãos para figuras históricas que antes figuravam em campos opostos, estabelecendo conversas profícuas com Manoel Leal, Antônio Menezes e Félix Mendonça. Essa postura madura e flexível permitiu a construção de um novo espaço de convivência em uma época dominada por divergências ideológicas.
Ainda na década de 80, as engrenagens da política lhe reservaram momentos de profunda decepção. Uma estratégia partidária o forçou a se candidatar a deputado federal, resultando em um distanciamento doloroso e na derrota eleitoral de seu antigo aliado, José Albuquerque Amorim, um problema que ameaçou uma amizade pessoal muito forte. A decisão de Amorim de se libertar da liderança de ACM desagradou o partido local e gerou um sentimento de traição que deixou marcas profundas na alma de Pinheiro. O episódio testou sua resiliência e trouxe mágoas severas que o acompanharam durante os desdobramentos subsequentes de sua trajetória pública.
Nos seus últimos anos, o político escolheu um caminho de solidão premeditada, perfeitamente ciente da raridade das verdadeiras amizades dentro da estrutura viciada do poder. Faleceu no dia 28 de agosto de 1988, carregando consigo o sonho irrealizável de governar a cidade que tanto defendeu como prefeito. Sua figura permanece na memória regional como um desbravador inconformado, uma mescla complexa de ruralista e urbano, cuja jornada reflete as vitórias e as dores do compromisso público. A marca deixada na história atesta o valor de uma vida dedicada, cultivando amizades firmes no cenário nacional, como Ângelo Calmon de Sá e Jutahy Magalhães, até o último momento.












