Morre o jornalista e radialista Joel Filho aos 69 anos

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O jornalismo do Sul da Bahia sofreu uma grande perda nesta segunda-feira (8) com o falecimento do jornalista e radialista Joel de Freitas Matos Filho, conhecido popularmente como Joel Filho, aos 69 anos.

O comunicador estava almoçando com seu filho mais velho em um restaurante no centro de Itabuna quando se sentiu mal. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) foi acionado imediatamente e a equipe médica tentou reanimá-lo por cerca de 40 minutos, mas, infelizmente, sem sucesso.


Trajetória Marcante na Comunicação

Joel Filho construiu uma carreira sólida e diversificada, transitando com naturalidade entre o rádio, a televisão e o jornalismo impresso. Ele atuou por muitos anos na Rádio Difusora Sul da Bahia e na Rádio Jornal de Itabuna. No meio impresso, foi redator e editor em veículos importantes, como os extintos Diário de Itabuna e Jornal Agora, além de ter sido editor do Tribuna do Cacau e da sucursal da Tribuna da Bahia na cidade.

Sua versatilidade também o levou à televisão, onde trabalhou no jornalismo da TV Cabrália (hoje Record Bahia Itabuna). Além da imprensa, Joel teve forte atuação na assessoria de comunicação, trabalhando para a Prefeitura de Itabuna em diversas gestões — incluindo as administrações de Capitão Azevedo e do atual prefeito Augusto Castro — e na cooperativa Credicoograp. Na esfera política, foi também um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) no município.


Repercussão e Homenagens

A morte de Joel Filho gerou comoção entre colegas de profissão e autoridades. Matheus Vital, editor do Pauta Blog e ex-colega de Joel, relembrou a paixão do jornalista pela profissão e sua veia política.

O prefeito de Itabuna, Augusto Castro, divulgou uma nota de pesar lamentando a perda: "O radiojornalismo do sul da Bahia perde um profissional ético e de valor e está em luto. [...] Deixo meus sentimentos aos seus quatro filhos e peço a Deus que a todos conforte", declarou o prefeito.

Joel Filho deixa quatro filhos e um legado de décadas dedicadas à informação e à história de Itabuna e região.



Félix Severino do Amor Divino

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O pioneiro sergipano e o mito fundacional de Itabuna

A fundação de Itabuna, cidade que floresceu no coração da região cacaueira do sul da Bahia, está intrinsecamente ligada à figura de Félix Severino do Amor Divino, um nome que se tornou o pilar da memória oficial e da identidade local. A historiografia tradicional, pautada em narrativas memorialistas regionais, especialmente aquelas consolidadas na década de 1960 por ocasião do cinquentenário da emancipação política, atribui a ele e a sua família o mérito exclusivo de terem lançado os fundamentos de uma próspera e futura cidade. Em meio a essa construção histórica, emerge um relato heroico e, por vezes, mitológico, que destaca o imigrante sergipano como o agente precursor da civilização grapiúna.

Félix Severino de Oliveira, como também era conhecido, era natural da Chapada dos Índios, em Sergipe. Sua chegada à região sul da Bahia ocorreu em um contexto de intensa migração, a partir de meados do século XIX (cerca de 1850), quando a crise no sertão sergipano e a promessa de riqueza na nascente lavoura cacaueira baiana impulsionaram levas de sertanejos e sergipanos. A historiografia aponta que esses migrantes vieram em busca de terras férteis e oportunidades, com o intuito de "conseguir um lugar debaixo do sol, para dissiparem os males sofridos em outras regiões".

Em 1857, Félix Severino do Amor Divino, junto ao seu companheiro, o crioulo Manoel Constantino, iniciou o povoamento da área que se tornaria o núcleo original de Itabuna. Segundo os relatos, após chegar a Ilhéus e buscar informações no Banco da Vitória, ele se dirigiu para um local indicado como propício para "botar uma taboca (roça)". A descrição desses primeiros momentos, feita pelo memorialista Oscar Ribeiro Gonçalves, evoca um cenário intocado, no qual o imigrante e seu companheiro contemplavam "a mata, os caboclos e as feras [que] eram seus únicos vizinhos", numa tentativa de inscrever a "verdadeira" história de Itabuna com um tom de romance e desbravamento.

A primeira moradia erguida por Félix Severino do Amor Divino foi uma pequena cabana, construída na margem direita do rio Cachoeira. Este local ficou conhecido como Marimbeta, que hoje corresponde ao bairro Conceição. O companheiro, Manoel Constantino, por sua vez, estabeleceu sua cabana na margem esquerda, onde mais tarde se desenvolveria a Praça Olinto Leone. No entanto, a narrativa memorialista que descreve a região como um "lugar ermo" e "floresta intocada" é historicamente problematizada, pois o território era habitado por populações indígenas e já contava com o importante aldeamento de São Pedro de Alcântara em Ferradas (lugar de povoação de índio), que servia como entreposto e via de acesso na região.

A consolidação do arraial, inicialmente conhecido como Tabocas, ocorreu dez anos após sua chegada. Foi nesse momento que Félix Severino do Amor Divino enviou a busca pela sua família remanescente em Sergipe, na Chapada dos Índios. Entre os parentes que atenderam ao chamado e migraram para a nova fronteira cacaueira estava José Firmino Alves, seu sobrinho. A família, ao se estabelecer, atraiu mais colonos e "lançara os fundamentos de uma próspera e futura cidade".

A imagem de Félix Severino do Amor Divino foi intensamente cultivada pela elite intelectual e política nas décadas seguintes. Os memorialistas o reverenciavam como um precursor do progresso e da modernização, e sua figura foi repetidamente eleita para protagonizar a história de Itabuna. Por exemplo, José Dantas de Andrade (1968) chegou a sugerir que, em homenagem ao pioneiro sergipano, fosse erguido um busto no local da primeira casa da cidade. Essa construção narrativa, frequentemente repetida, inclusive em obras acadêmicas, estabeleceu a identidade de Itabuna ligada à origem dos imigrantes sergipanos, distanciando-a de Ferradas e do núcleo de povoamento indígena.

A exaltação de Félix Severino e outros sergipanos como "desbravadores, pioneiros" e "homens simples e trabalhadores" possuía um claro viés político na década de 1960. Ao enfatizar a origem humilde e o esforço braçal dos fundadores, a elite cacaueira da época procurava legitimar seu poder e riqueza como uma "herança de trabalho", minimizando as tensões sociais decorrentes da organização dos trabalhadores rurais e distanciando a história de Itabuna das "práticas arcaicas da antiga aristocracia" ligadas ao trabalho escravo, associadas à vizinha Ilhéus.

Dessa forma, a biografia de Félix Severino do Amor Divino transcende o relato individual, tornando-se uma metáfora para a própria história oficial de Itabuna. O fundador, descrito como aquele que "encontrou [Itabuna] no mato e entregou ao seu sobrinho José Firmino Alves, o qual lhe soube dar boa criação, educação, instrução e beleza" (Andrade, 1968, p. 18), simboliza o início da "civilização grapiúna". A permanência de seu nome em logradouros, monumentos e na memória local assegura seu lugar como ícone do pioneirismo sergipano, um alicerce inabalável da identidade cultural e histórica da cidade. O artista plástico Walter Moreira, um dos que retrataram o cotidiano local, era, inclusive, descendente de Félix Severino de Oliveira. A figura de Félix Severino do Amor Divino funciona como um farol na névoa do passado: ele não apenas deu início ao povoamento, mas também personificou a narrativa de esforço e ascensão que a elite local escolheu perpetuar.

Ferradas comemora 210 anos. Parabéns!

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Ferradas, o bairro mais histórico de Itabuna, terra de Jorge Amado, está completando 210 anos. Para marcar a data especial, estão agendados dois eventos:

Praça de Ferradas
Comemoração na praça principal, com início na Igreja de N. Sra da Conceição, com a tradicional missa, corrida de rua, ciclismo e apresentação de fanfarra. Um evento idealizado e coordenado por Zem Costa.
Data: 19 de Outubro (domingo)
Horário: a partir das 7h

Câmara de Vereadores
Sessão especial em comemoração ao aniversário de 210 anos de Ferradas, proposta pelo Vereador Baba Cearense.
Data: 21 de Outubro (terça-feira)
Horário: 19h

Imóvel histórico na Praça José Bastos será restaurado pela UESC

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Aquele prédio histórico localizado na Rua Osvaldo Cruz, em frente à Praça José Bastos, onde funcionou o Instituto de Cacau da Bahia, uma agência da Sulba e a Cesta do Povo, será restaurado pela Universidade Federal de Santa Cruz. O imóvel hoje pertence à UESC, que está aguardando apenas que a Prefeitura de Itabuna faça a realocação dos comerciantes alojados ali ao lado para realizar a requalificação do prédio, iniciando pelas fachadas. Um colaborador da nossa página nos enviou a simulação de como ficará.

Manoel Pereira Gonçalves, o “Papai Noel” das calçadas de Itabuna

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O Ícone Contracultural que Beliscava as Musas da "Geração Dourada"

A história não registra seu berço, nem a saga familiar que o trouxe ao sul da Bahia. Para a Itabuna dos anos 50 e 60, Manoel Pereira Gonçalves simplesmente existiu, um enigma barbudo que a memória popular batizou de "Papai Noel" pela óbvia semelhança com o mito ocidental. Mas nosso Papai Noel tropical era mais do que uma caricatura natalina: era o contraponto vivo, o sarcasmo encarnado, a antítese filosófica de uma cidade "mergulhada no egocentrismo, na individualidade e na falta de amor ao próximo". Ele se tornou, sem querer, a estrela maior de um palco improvável, deixando um vazio biográfico que só exalta sua aura: afinal, “Papai Noel” nunca disse a ninguém onde nasceu, viveu, ou quem eram seus pais.

Seu ponto de observação era estratégico: a porta do Cine Itabuna. Ali, ele reinava como a “marca registrada de uma geração” que buscava escapismo na tela e encontrava a realidade mais dura e fascinante na calçada. Carrancudo e sério, ele era o guardião do templo da sétima arte, um mestre da introspecção cujos olhos profundos exprimiam a dureza material da vida. No entanto, a sua presença, alimentada pela bondade de terceiros como o saudoso Bionor Rebouças, era a prova viva de que a solidariedade ainda respirava, mesmo que timidamente, na paisagem urbana.

O nosso herói, porém, não era feito só de seriedade e reflexão. Papai Noel carregava um charme irreverente e bem-humorado, uma dose de swing inesperada que o ligava diretamente à efervescência jovem da época. O artigo imortaliza o seu gesto mais audacioso e gentil, aquele que o tirava da apatia aparente e o colocava na lista dos crushs inesquecíveis: o Papai Noel das tardes de cinema “entre um cochilo e outro, ainda tinha energia para dar uma beliscada carinhosa nas pernas das gatinhas que passavam à sua frente". Um flerte histórico, um toque de ternura vintage que selava sua popularidade.

A comunidade o adorava não apenas pelo folclore, mas pela carga simbólica de sua vida. A meninada e os mais velhos nutriam por ele “um carinho todo especial, como se aquele ser humano fosse a reencarnação de um grande espírito” enviado para reeducar os itabunenses. A ironia era sublime: o homem mais pobre da rua era, na verdade, o mais rico em significado, pois sua mera existência era o espelho que a sociedade egocêntrica não queria olhar. Sua presença era um convite perene à meditação.

Apesar da carcaça maltrapilha da velhice, a história é enfática ao exaltar a força de um passado não revelado. Seu corpo, “apesar da idade, dava sinais de que, na mocidade, Papai Noel foi um ser humano forte e robusto", escreveu um jornalista da época. Esse vigor ancestral reforçava a sua estatura lendária, sugerindo que o homem escolhera, ou fora levado, a viver uma existência de despojamento voluntário ou forçado, mas sempre com dignidade. Seu mistério nunca foi desvendado, e a ausência de dados biográficos completos apenas consolidou sua lenda como um espírito livre.

Assim, Manoel Pereira Gonçalves não nos deixou presentes materiais, mas um legado imensurável que transcendeu sua morte em 7 de agosto de 1967. Ele foi um "exemplo para toda uma geração", um filósofo da calçada que ofereceu à cidade a “lição de humildade, da compreensão, da fraternidade e da justiça social.” Papai Noel de Itabuna é a prova de que a maior riqueza de um homem pode residir na mais absoluta pobreza, e que o humor e a ternura podem ser as ferramentas mais eficazes para a crítica social. Sua vida simples permanece, até hoje, uma das mais elaboradas peças do nosso folclore urbano.

Sabará, o Maestro das baquetas e da vida

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Um tributo em rufos, lembranças e sorrisos ao grande mestre da bateria do sul da Bahia

Aldamiro Leôncio da Silva — ou simplesmente Sabará — é mais que um baterista; é uma aura sonora que ecoa pela história musical do interior da Bahia. Com mais de oitenta anos vividos e dezenas de décadas dedicadas à arte da percussão, sua trajetória se impõe como uma narrativa de persistência, de encantamento e de generosidade. Ele virou mito, mestre e ponte entre gerações.

Desde os primeiros compassos de sua vida, Sabará mostrou que sua missão era vibrar junto com os sons mais profundos. “Devo ter uns 75 anos de bateria, desde aprendiz”, confidencia com humildade e orgulho, tão seguro de seu longo caminho quanto sorridente ao narrá-lo.

Seu apelido, curiosamente nascido no futebol de praia, carrega esse gesto de paixão popular: corria nas areias igual a um jogador do Vasco, e assim adotou o nome — um batismo leve, bem-humorado, mas que o acompanha com dignidade ao longo da vida.

A carreira de Sabará não se construiu apenas nos palcos das boates ou nos salões iluminados, mas sobretudo nas salas de aula — quem o conheceu sabe: ele formou muitos dos grandes bateristas da região. Bruno, Cláudio Kron (residindo na Inglaterra), Tadeu Oliveira (na Itália), Tiago Nogueira (em Salvador) — todos passam pela escola e pelo afeto desse mentor incansável.

Sua militância musical é feita de deslocamentos geográficos e encontros memoráveis. Ele tocou no Rio de Janeiro, no Clube Realengo e no Hotel Quitandinha; depois veio ao sul da Bahia, onde integrou bandas, formou quintetos (como o “Lord Show”) e ajudou a criar um panorama cultural em cidades como Ilhéus e Itabuna.

O talento de Sabará ultrapassa a habilidade técnica: ele é também pensador da música. Em sua fala, destaca que o ato de tocar bateria ilumina a neurociência — “tocar bateria alivia estresse, fadiga, hipertensão” — e que o processo pedagógico pode servir a todos, inclusive à terceira idade.

Em sua didática, ele adota o que poderíamos chamar de “imediatismo musical”: no primeiro dia de curso, o aluno já se aproxima do instrumento; em poucos meses muitos já tocam músicas completas. Sua apostila, elaborada com carinho, é guia e estímulo: ele insiste que “música é ciência exata”, mas também paixão visceral.

Ele não teme desafios: sabe da dependência entre mãos — exercita a “independência dos órgãos” — ensina a mão esquerda a trabalhar como a direita, transforma canhotos em bateristas de ambidestria. Polirritmia, coordenação, técnica: tudo isso é parte de seu repertório de combate ao tédio e ao ócio.

Mesmo com tantos anos nos tambores, ele nunca deixou o brilho da juventude. Mantém bom humor e simpatia inabaláveis, celebrando a vida como um compasso sempre novo. Ele rejeita a “bateria eletrônica” com firmeza de tradicionalista, ainda que reconheça seu valor para a experimentação — mas sua alma está na bateria acústica, no couro, no estalo orgânico do tambor.

Sabará é mais que um músico: é guardião de uma cultura que sucumbe ao tempo. Ele lamenta que cidades como Itabuna tenham perdido o brilho de antigas festas e carnavais, e critica a falta de valorização dos talentos locais.