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Itabuna: celebrar a nossa história, abraçar os desafios e projetar o amanhã

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Por Alessandro Fernandes

O aniversário de emancipação política de Itabuna, celebrado em 28 de julho, vai muito além do simbolismo de uma data festiva. É o momento ideal para olharmos com orgulho para a trajetória de uma cidade que se consolidou como liderança no Sul da Bahia e, com a mesma lucidez, refletirmos sobre as escolhas que desenharão o nosso futuro nas próximas décadas.


Nossa Força Histórica e Vocação Regional

Poucas cidades do interior baiano exercem uma influência tão viva e acolhedora quanto a nossa. Nosso dinamismo econômico, a forte vocação para o comércio, o pioneirismo regional em serviços, especialmente na saúde e na educação, e a capacidade natural de atrair pessoas e novos investimentos transformaram o município no coração da nossa região. Essa posição de destaque, conquistada ao longo de mais de um século com o suor de nossa gente, traz consigo uma responsabilidade do mesmo tamanho. A nossa história prova que Itabuna sempre soube acolher as dificuldades e transformá-las em recomeços, tanto na cidade quanto no campo.

A crise da lavoura cacaueira, que impactou profundamente a economia regional no final do século passado, poderia ter determinado a nossa estagnação. Mas o que se viu foi a força resiliente do nosso povo. Diversificamos a economia, fortalecemos o comércio, ampliamos o setor de serviços e nos consolidamos como um porto seguro para dezenas de municípios vizinhos.

Essa mesma capacidade de superação pulsa com vigor na nossa zona rural. Os moradores do campo, com sua sabedoria e dedicação diária à terra, mantêm viva a nossa forte tradição agrícola. A agricultura familiar e os nossos produtores rurais não apenas garantem o alimento fresco que abastece as feiras e os lares itabunenses, mas também representam um pilar essencial da nossa identidade e da sustentabilidade econômica do município.


O Coração Pulsante da Economia Local

Dentro dessa visão de futuro, um passo fundamental é aproximar os grandes atacadistas e os centros maiores de abastecimento, do nosso empresariado local, valorizando de forma muito especial o comércio dos bairros.

São as pequenas e médias empresas, ativas em cada canto da cidade, que garantem o sustento de tantas famílias, geram empregos perto de casa e mantêm a nossa economia pulsando. Elas são o verdadeiro motor do desenvolvimento socioeconômico itabunense e merecem todo o nosso apoio.

Contudo, sabemos que não podemos apenas nos orgulhar do que já foi feito. As cidades que liderarão o amanhã serão aquelas capazes de planejar o crescimento com sensibilidade e coragem, unindo o conhecimento humano, a tecnologia e a sustentabilidade no dia a dia das políticas públicas.


Infraestrutura Conquistada e o Caminho para a Inovação

É exatamente aí que se encontra o nosso maior compromisso com as próximas gerações. O crescimento urbano de Itabuna aconteceu em um ritmo muito mais veloz do que a nossa capacidade de planejar. Desafios antigos de mobilidade, drenagem, saneamento, moradia e desigualdade social ainda limitam o bem-estar da nossa população.

É preciso reconhecer que, nos últimos anos, fruto de uma parceria sólida e do compromisso dos governos municipal e estadual, Itabuna vive um momento histórico de modernização e transformações estruturais há muito aguardadas. Essas importantes conquistas pavimentam o caminho para um novo e necessário passo: o de somar à infraestrutura uma gestão urbana focada na inovação.

Esse novo passo preparará nossa cidade para as transformações econômicas e climáticas que já batem à nossa porta. Felizmente, temos diante de nós um horizonte promissor. A expansão da nossa infraestrutura de transportes, a conclusão da BA-649, irá revolucionar nossa logística com Ilhéus e região. Na agricultura que já vem se diversificando, a retomada de uma cacauicultura moderna e focada na qualidade, não apenas das amêndoas, mas também na agregação de valor com a produção de chocolates, fruto do empreendedorismo individual e de associações locais, aponta para um novo ciclo de prosperidade.


O Conhecimento e a Saúde como Vetores de Desenvolvimento

Nesse cenário, o conhecimento se torna a ferramenta mais valiosa para o desenvolvimento, e este é um patrimônio que Itabuna possui de sobra. Nossa cidade se transformou em um polo universitário de excelência, construído com a dedicação de mais de três décadas da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), hoje uma instituição consolidada, e agora fortalecido pela presença da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e de instituições privadas que também desempenham um papel importante para o município e a região, além das ações recentes para implantação de um campus do Instituto Federal da Bahia (IFBA). Toda essa energia acadêmica, somada aos nossos institutos de pesquisa, forma um ecossistema de aprendizado vibrante e raro no país. Essa base científica e educacional confere a Itabuna um imenso potencial para constituir-se em um hub de tecnologia e inovação, pronto para gerar novas oportunidades e servir à nossa comunidade e ao Estado da Bahia.

Além da educação, consolidamos nossa vocação como o principal polo de saúde do sul do estado, oferecendo atendimento médico de alta complexidade para quem mais precisa. Esse cuidado ganhou um reforço essencial com os investimentos recentes do governo estadual, a exemplo da modernização e ampliação do Novo Hospital de Base Luís Eduardo Magalhães.


Identidade, Efervescência Cultural e Esportiva

Essa mesma energia que cuida da mente e do corpo se manifesta na alma de Itabuna por meio da nossa cultura, da música e do esporte. Fomos berço e inspiração para nomes importantes da literatura e das artes como Firmino Rocha, Amélia Amado, Jorge Amado, Adonias Filho e Candinha Dórea. Essa tradição continua viva em nomes que orgulham nossa história recente, como Cyro de Mattos, Ruy do Carmo Póvoas, Ritinha Dantas, Lourdes Bertol, Janete Macêdo, mestre Sabará da Bateria, Jackson Costa, e o querido Clóvis de Figueiredo Leite, o eterno Kocó do Lordão.

Para acolher tanto talento, nossa cidade expressa sua identidade em espaços públicos de grande valor, como o Centro de Cultura Adonias Filho e o Teatro Municipal Candinha Dórea, palcos que valorizam os artistas da terra. Essa força criativa ecoa na música de Alinne Rosa, na autenticidade de Carla Valéria, Brisa Aziz e Laiô, e no ritmo de tanta gente boa da nossa querida Itabuna. Ela se estende também às festas populares, onde o exemplo maior é o Ita Pedro, evento que hoje projeta nossa cultura para todo o Brasil, gerando turismo, emprego, renda e celebrando com orgulho a nossa identidade nordestina.

A garra do nosso povo também brilha no esporte, alimentando a paixão pelo Itabuna Esporte Clube, o nosso icônico Dragão do Sul, eterno revelador de talentos no futebol, pelo Grapiúna Atlético Clube, e inspirando nossos jovens através da disciplina de campeões como o pugilista Samuel Rosa, hexacampeão brasileiro de boxe. Mas faz-se necessário ampliarmos os equipamentos esportivos, e culturais, inclusive nos bairros, democratizando ainda mais o acesso ao esporte e à cultura.

Planejamento Estratégico e Governança Regional

Sabemos, como cidadãos, que nenhuma dessas oportunidades econômicas ou culturais trará resultados sozinha. Grandes obras e talentos individuais só geram bem-estar real quando caminham de mãos dadas com o planejamento responsável, a qualificação profissional dos nossos jovens, a segurança jurídica e o fortalecimento das nossas instituições. Sem uma estratégia humana e integrada, corremos o risco de ver a economia crescer sem que esse progresso chegue, de forma justa, à mesa de cada morador.

Felizmente, esse caminho já começou a ser desenhado. Hoje, o desenvolvimento se materializa em obras que impactam positivamente a rotina das pessoas, como o novo Complexo Viário, o Viaduto da Avenida Princesa Isabel, que trazem mais segurança ao nosso trânsito, e as obras essenciais para ampliar o abastecimento de água nos bairros. Para o futuro que desejamos, essa integração prática precisa se transformar em um diálogo permanente e maduro entre as nossas universidades, a sociedade civil, os empresários locais e o poder público, convertida em verdadeira política de Estado.

Diante disso, torna-se indispensável robustecer a governança regional. Os desafios da mobilidade, da saúde, da infraestrutura, da preservação ambiental e da atração de investimentos ignoram fronteiras e limites administrativos. Itabuna e seus municípios vizinhos compartilham o mesmo destino, com dores e potenciais idênticos. O progresso do Sul da Bahia dependerá, cada vez mais, da capacidade de cooperação sinérgica entre governos, academias, empresas e a sociedade civil.


Representatividade e o Desenho do Amanhã

Aliada a essa articulação interna, surge a necessidade urgente de uma maior representatividade política para o sul da Bahia. Uma região com tamanha robustez econômica, acadêmica e demográfica não pode aceitar um papel secundário nas mesas de decisão. É fundamental consolidar lideranças capazes de dar voz às demandas regionais junto às esferas estadual e federal, garantindo que o peso histórico e a importância estratégica do nosso território se traduzam em orçamentos, emendas e investimentos públicos proporcionais à nossa grandeza. Afinal, mais do que gerenciar o presente, é preciso desenhar o futuro. As cidades que alcançam elevados níveis de desenvolvimento humano não improvisam, elas planejam.

Cidades fortes estabelecem metas de longo prazo, preservam políticas públicas bem-sucedidas, investem na base educacional e compreendem que progresso econômico e justiça social não são caminhos opostos, mas faces da mesma moeda. O destino de Itabuna não será moldado apenas pelas circunstâncias ou por investimentos externos. Ele nascerá da capacidade de sua gente em construir consensos, fortalecer suas instituições e transformar potencialidades em oportunidades concretas para todos.

Ao celebrar sua emancipação, Itabuna tem motivos de sobra para orgulhar-se de sua história. Contudo, a melhor homenagem prestada às gerações que edificaram este solo é assumir, com coragem e responsabilidade, o compromisso de prepará-lo para os desafios do século XXI.

É tempo de celebrar. Mas, acima de tudo, é tempo de planejar. Porque as cidades que pensam grande hoje são as que garantirão dignidade, qualidade de vida e esperança para as próximas gerações. Como bem entoa o nosso hino municipal:

“Itabuna, sua glória, sua história

São orgulhos ao coração!”

Parabéns, Itabuna!

 

Alessandro Fernandes  

Itabunense, reitor da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Doutor em Ciências Sociais: Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade; Mestre em Cultura e Turismo; Especialista em Economia de Empresas; Economista e Administrador de Empresas. É o atual presidente do Fórum de Reitores das Universidades Estaduais da Bahia e dos conselhos de administração do Parque Tecnológico do Sul da Bahia (PCTSB) e do Centro de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (CEPEDI). É membro da Academia de Letras de Itabuna (ALITA), da Academia de Letras de Ilhéus (ALI) e membro benemérito da Academia Grapiúna de Letras e Artes (AGRAL).


Moisés Chaussê: um nome que ajudou a escrever a história das fanfarras de Itabuna

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Quem viveu a era de ouro das fanfarras em Itabuna certamente se lembra de Moisés Chaussê. Músico, professor e maestro, ele iniciou sua trajetória como regente aos 16 anos, em 1993, à frente da FANCEI (Fanfarra do Colégio Estadual de Itabuna).

Com talento, disciplina e dedicação, tornou-se uma referência no cenário das fanfarras da Bahia. Ao longo de sua carreira, formou inúmeros músicos e conduziu corporações a importantes conquistas estaduais. Foi campeão baiano em 2003 e 2005, com a FAEC, de Camamu; em 2009, com a FANCEI, de Itabuna; e em 2018, com a fanfarra de Ibirapitanga.

Mais do que os títulos, Moisés conquistou o respeito e a admiração de gerações de alunos e integrantes. Ainda hoje, é comum encontrar comentários em vídeos antigos das apresentações, lembrando a FANCEI como uma das melhores fanfarras da Bahia e destacando sua competência como músico, professor e maestro.

Atualmente, Moisés enfrenta um dos maiores desafios de sua vida. Ele convive com ataxia esporádica, uma doença neurológica degenerativa que vem comprometendo seus movimentos de forma progressiva. Mesmo diante das limitações, nunca abandonou a música. Continua compondo, escrevendo partituras e criando novas obras, demonstrando que sua paixão pela arte permanece intacta.

Sua trajetória é parte da memória cultural de Itabuna. Um legado construído com talento, dedicação e amor à música, que continua inspirando todos aqueles que tiveram o privilégio de aprender com ele ou acompanhar seu trabalho.


Dr Alberto dos Reis Lessa

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Alberto dos Reis Lessa nasceu em Rio Novo, hoje Ipiaú, em 1916. Foi para Salvador ainda criança, onde estudou e adquiriu os conhecimentos fundamentais, posteriormente formando-se médico pela Faculdade de Medicina da Bahia (FAMEB). 

Exerceu seu múnus em Itabuna como médico pediatra em 1945 e, nesta mesma década e até meados da seguinte, acolhia todo médico que para aqui vinha, até que se estabelecesse. Ele e Dr. Mirandinha foram os primeiros pediatras de Itabuna. 

No âmbito da saúde, fundou o Lactário Izolina Guimarães, implantou a Unimed/Itabuna, foi um dos fundadores do IPEPI (hoje CEMEPI), além de ter sido Secretário de Saúde por duas vezes e fundador do partido político MDB no município de Itabuna.

Foi casado com a Maestrina Profª Zélia Lessa. Faleceu em 2012, em Itabuna. No bairro Santa Inês há uma escola infantil com seu nome.


Damas de Itabuna

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Senhoras da elite itabunense dos anos dourados das terras do cacau. Década de 60. Lúcia Midlej, Iris Barroco, Tereza Briglia, Eunice Sansão, Diquinha Costa Lino, Mona Midlej, Maria Alice Araújo e Glorinha Galvão e Regina Cravo (sentada).


Namir Oliveira Mangabeira e Silva

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(1925–1968) 

Primeira mulher a exercer a chefia do Executivo Municipal de Itabuna 

Namir Oliveira Mangabeira e Silva nasceu em 30 de abril de 1925 e faleceu em 16 de setembro de 1968. Servidora pública dedicada e reconhecida por sua competência técnica na área financeira, destacou-se na administração municipal de Itabuna em um período de importantes transformações políticas e administrativas. Antes de assumir funções de maior relevância, Namir exercia o cargo de subcontadora da Prefeitura. Em razão do afastamento do então secretário Afrânio, que foi convidado para dirigir a administração dos estádios municipais de Itabuna, recebeu sua indicação para assumir a direção do Departamento de Administração e Fazenda (DAF), órgão equivalente à atual Secretaria de Finanças. 

Naquele momento, o prefeito Félix Mendonça precisou afastar-se do cargo para concorrer ao mandato de deputado estadual. Buscando garantir a continuidade administrativa do município, solicitou a Afrânio a indicação de um nome de confiança para exercer interinamente a chefia do Executivo. A escolhida foi Namir Oliveira Mangabeira e Silva, cujo nome foi encaminhado à Câmara Municipal e aprovado pelos vereadores. Em 5 de setembro de 1966, Namir tomou posse como prefeita interina de Itabuna, tornando-se a primeira e única mulher a ocupar tal posição na história política do município. 

Embora a previsão inicial fosse de permanência no cargo por aproximadamente 04 meses, problemas de saúde (ela descobriu um câncer de mama) a obrigaram a afastar-se após apenas 28 dias de gestão para se tratar. Apesar do curto período à frente da Prefeitura, sua administração deixou marcas significativas. Entre as principais medidas adotadas destacam-se: 

• A autorização da venda simbólica de uma área de três hectares no bairro São Caetano à Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, contribuindo para a expansão das atividades religiosas e assistenciais da instituição; 

• A concessão de isenção de impostos municipais por dez anos aos adquirentes da área, como forma de incentivo ao empreendimento; 

• A regularização da situação do funcionalismo público municipal, assegurando direitos relacionados a férias, décimo terceiro salário e enquadramento funcional. 

O período de sua administração, compreendido entre 5 de setembro e 3 de outubro de 1966, evidenciou uma gestão voltada para a organização das finanças públicas, valorização dos servidores municipais e apoio a iniciativas de interesse social. 

Ao partir em 1968 com 43 anos, deixou 3 filhos: Pedro Antônio, na época com 5 anos de idade, Maria da Glória (7 anos) e Luiz Augusto (15 anos), além do marido Pedro Mangabeira e Silva. Em sua homenagem, sua neta chama-se Namir Gabrielle Mangabeira de Oliveira.

Mesmo tendo exercido o cargo por breve tempo, Namir Oliveira Mangabeira e Silva permaneceu na memória administrativa de Itabuna como exemplo de dedicação ao serviço público e pioneirismo feminino na política local. Sua trajetória representa um importante capítulo da participação das mulheres nos espaços de decisão do município, em uma época em que a presença feminina na administração pública ainda era rara e desafiadora.  


Valmir Américo de Souza

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O comerciante que transformou o varejo regional unindo a força do trabalho e o valor absoluto da palavra

O calendário marcava meados do século vinte quando um jovem cheio de expectativas desembarcou em solo itabunense. Nascido em 27 de setembro de 1935, no distrito de Mirandela, pertencente ao município de Ribeira do Pombal, no norte da Bahia, Valmir Américo de Souza iniciou sua jornada em uma Itabuna bem diferente da atual. Era 05 de maio de 1951 quando ele chegou à cidade, que na época contava com aproximadamente 42 mil habitantes, um cenário em crescimento que se tornaria o palco principal de toda a sua história.

A chegada ao novo lar trouxe também os desafios imediatos da sobrevivência, exigindo um amadurecimento precoce diante das dificuldades econômicas da época. Sem conseguir concluir os estudos regulares antes da mudança por conta das necessidades urgentes da vida prática, Valmir precisou encontrar espaço entre as duras jornadas de trabalho para se dedicar aos livros. Sua persistência educacional ganhou forma no Instituto São José, onde cursou o primário, avançando mais tarde para as salas de aula do Maria Goretti e, finalmente, consolidando sua formação técnica no Colégio Comercial.

Antes de se estabelecer de forma definitiva no ambiente corporativo urbano, o dinamismo de Valmir se manifestou em diferentes frentes de trabalho na próspera região cacaueira. Por longos anos, ele dominou a arte de confeccionar e consertar sapatos atuando como sapateiro dedicado, além de trabalhar diretamente como comerciante nas feiras livres de Itabuna, Ilhéus e outros municípios vizinhos. 

Em paralelo à agitação do comércio popular, ele administrou duas pequenas propriedades rurais, dividindo sua atenção entre o cultivo de uma roça de seringueira e outra de cacau. 

A grande virada profissional coincidiu com a própria modernização e reorganização do espaço urbano local. Quando a tradicional feira livre foi transferida das imediações do antigo SESP, na Avenida Amélia Amado e no Canal Lava Pés, para o recém-criado Centro Comercial, Valmir enxergou uma oportunidade de ouro para mudar de patamar. Unindo forças com o hoje saudoso José Neto, que já era um conhecido comerciante de artigos voltados para sapateiros, ele fundou no ano de 1973 a emblemática Jandaia Calçados.

O novo empreendimento não demorou a provocar uma verdadeira revolução nas engrenagens do varejo de Itabuna, subvertendo as regras tradicionais de financiamento. A Jandaia Calçados implementou um sistema inovador onde a confiança mútua valia muito mais do que burocracias pesadas ou garantias bancárias formais. O crédito era concedido de forma imediata através de uma ficha simples, que demandava apenas breves anotações manuscritas e o devido registro do nome de quem havia apresentado o novo cliente ao estabelecimento.

Essa política de extrema proximidade criou um vínculo tão profundo com a comunidade que as facilidades de compra passaram a fazer parte do cotidiano familiar dos clientes. A palavra de um comprador antigo tinha peso de documento, bastando enviar um parente para que o atendimento fosse realizado sem qualquer restrição ou checagem extra. Essa dinâmica espontânea ficou eternizada na memória coletiva regional através da clássica recomendação das mães aos seus filhos: “Menino, passe na Jandaia Calçados e diga a Seu Valmir que fui eu quem mandei você comprar, e que depois eu passo lá para acertar”. Era o retrato fiel de tempos saudosistas marcados pela honestidade pura.

A engrenagem desse sucesso comercial marcante não girava sozinha e dependia diretamente de um grupo de funcionários que dividiam com o fundador o mesmo padrão de dedicação ao público. O cotidiano dinâmico da loja ganhou vida através do empenho de colaboradores excelentes que se tornaram figuras fundamentais na consolidação da marca. É impossível resgatar a biografia desse estabelecimento sem destacar a contribuição essencial de nomes como Demir Nascimento, Evelyn, Antônio Claro, conhecido popularmente como Tonho, Neuma Reis, Eliene Bahia, Gilvan Farias, Zé Luís, João Garrincha e Orlane Marques.

Após mais de duas décadas de liderança ativa e consagração no mercado, Valmir tomou uma decisão surpreendente que revelou seu desapego material e sua visão coletiva. No ano de 1995, ao alcançar a oportunidade de se aposentar, ele optou por se afastar da gestão e entregou o controle total da Jandaia Calçados diretamente para as mãos de seus funcionários. Essa transição surpreendente, contudo, não significou o fim de sua atividade profissional, pois logo em seguida ele passou a trabalhar ao lado de um filho, mantendo uma rotina produtiva que perdura até os dias atuais, mostrando que ele não se cansa.

Longe dos balcões comerciais, a vida pessoal do comerciante também foi marcada por movimentos intensos e dividida em dois capítulos familiares distintos e populosos. Seu primeiro casamento foi construído ao lado da senhora Lalá, uma união de cumplicidade que gerou seis filhos biológicos e ainda se expandiu com a adoção e criação de mais uma filha. Anos mais tarde, Valmir arrefeceu sua caminhada afetiva em um segundo matrimônio com a senhora Urânia Silva, com quem teve mais dois filhos, ampliando seu legado familiar.

Com uma trajetória que se confunde diretamente com a evolução da própria cidade do sul baiano, Valmir se consolidou como uma verdadeira testemunha ocular do crescimento regional. Ele acompanhou de perto as comemorações históricas do cinquentenário e do centenário de emancipação de Itabuna, acumulando memórias vivas de uma terra que ajudou a calçar com dignidade. Hoje, esbanjando uma vitalidade contagiante, o veterano comerciante faz planos ousados para o futuro e pretende participar ativamente da grande celebração dos 150 anos do município.