A trajetória de Calixto Midlej entre o luxo, a simplicidade e a dedicação à medicina local
Calixto Midlej Filho construiu uma trajetória singular na cidade de Itabuna, marcada pela busca constante por excelência e por contrastes fascinantes em sua personalidade. Ele era um homem que apreciava a pompa, a liturgia da vida e os grandes acontecimentos, exigindo vestir sempre roupas impecáveis e desfrutando da posição de centro das atenções. Curiosamente, essa mesma figura sofisticada e detalhista era capaz de sair de madrugada rumo à feira mais próxima para saborear pratos extremamente populares, como mocotó e sarapatel, demonstrando uma convivência pacífica entre o requinte e a simplicidade.
Na esfera social, sua presença era notável e bastante requisitada pela elite local. Dono da Loja Consul, ele conciliava a atenção rigorosa aos seus negócios particulares com a participação ativa na alta sociedade itabunense, mantendo sempre um comportamento recatado. Embora não consumisse bebidas alcoólicas, conquistava a admiração profunda de figuras proeminentes da época, como Maria Alice Araújo, Regina Padilha e Teresa Barros. Na vida pessoal, foi casado com Mona Midlej, uma união que terminou de maneira respeitosa, sem queixas de ambas as partes, evidenciando o grande valor que ele dava à própria privacidade.
Saúde Pública
A grande missão de sua existência, no entanto, encontrou morada na área da saúde pública. Como provedor da Santa Casa de Misericórdia de Itabuna, ele assumiu a imensa responsabilidade de modernizar toda a estrutura médica da região sul da Bahia. Essa tarefa tornou-se sua paixão e sua razão de viver, exigindo um trabalho desesperado e incansável dia após dia. O nível de dedicação era tão elevado que ele costumava comparar a complexidade de administrar hospitais, médicos e enfermeiras ao desafio de governar um município inteiro.
Para viabilizar essas ambiciosas reformas hospitalares, Calixto precisou atuar nos bastidores com grande habilidade estratégica. Ele era um militante da Arena e um lobista eficiente, mantendo amizades valiosas com políticos influentes como Antônio Carlos Magalhães. Utilizando essa rede de contatos, conseguia captar recursos fundamentais junto a José Haroldo de Castro Vieira, que atuava como todo poderoso secretário geral da Ceplac. Esse trânsito garantiu que ele transformasse as unidades de saúde locais em um complexo avançado para os padrões da época.
Política
O sucesso incontestável de sua gestão na área da saúde logo despertou o interesse do cenário político. Um grupo diversificado de médicos, cacauicultores e empresários, somado a figuras como José Soares Pinheiro, Alberto Seixas, Lauro Astolfo, Félix Mendonça, Raimundo Seixas e Eliés Haun, passou a enxergá-lo como o candidato ideal para assumir a prefeitura. O jornal matutino Tribuna do Cacau também declarou preferência por seu nome, e o amigo Valter Barreto chegou a defini-lo maravilhosamente como o “prefeito perfeito”, aumentando a pressão para que ele disputasse o cargo.
A resposta definitiva para esses apelos aconteceu durante um encontro na década de setenta, nas dependências de sua Loja Consul. Com um cigarro entre os dedos e o olhar brilhante de quem compreendia exatamente o cenário em análise, ele encerrou as expectativas dos amigos com a seguinte declaração: "Estou impossibilitado de candidatar-me. Conheço os mistérios de uma campanha eleitoral, os pulos da democracia. Nem sempre vence o melhor, o mais qualificado". Ele havia percebido muito cedo que o resultado das urnas reflete uma preferência pontual e não um ato de justiça.
A recusa em entrar para a política partidária expôs algumas contradições e limitações de sua figura pública. Enquanto muitos o exaltavam, uma parcela da sociedade o considerava um homem elitista, desprovido do carisma popular necessário para encarar as praças, os comícios e as exigências das massas. Ele de fato rejeitava o populismo e preferia evitar o desgaste de uma disputa eleitoral, mantendo uma postura de cavalheirismo. Mesmo assim, era conhecido por ter reações intempestivas e emocionadas nas ocasiões em que se sentia magoado ou injustiçado pelas intrigas alheias.
Insubstituível
Longe da prefeitura, sua contribuição para Itabuna aconteceu de forma imensurável e à custa de seu próprio conforto. Apesar de possuir imenso prestígio, influência e crédito na região, ele morreu levando uma vida simples e nunca fez qualquer esforço para acumular bens materiais ao longo da vida. Jamais adotou a postura de um bon vivant ou atraiu a inveja das pessoas ao seu redor, preferindo direcionar toda a sua energia para beneficiar a comunidade. Tudo o que realizou foi motivado pelo idealismo e pelo desejo de servir.
Sua jornada foi marcada pela urgência de quem parecia adivinhar que seria chamado muito cedo. Ele viveu intensamente para erguer a Santa Casa de Misericórdia, enfrentando todo tipo de incompreensão para consolidar sua obra e garantir um atendimento digno à população. O falecimento ocorreu no dia quatro de julho de 1985, encerrando a trajetória de um homem que se doou por completo ao bem estar coletivo de sua terra.
O impacto deixado na medicina do sul da Bahia permanece como a prova definitiva de sua capacidade de realização. A estrutura moderna que a cidade herdou é fruto direto de sua visão administrativa e de sua teimosia em fazer dar certo. Embora outros gestores competentes tenham assumido o comando da instituição posteriormente de forma feliz, o amor exclusivo e intransferível que ele dedicou àquele hospital (que hoje leva o seu nome) garantiu a ele um espaço completamente insubstituível na história local.











