O comerciante que transformou o varejo regional unindo a força do trabalho e o valor absoluto da palavra
O calendário marcava meados do século vinte quando um jovem cheio de expectativas desembarcou em solo itabunense. Nascido em 27 de setembro de 1935, no distrito de Mirandela, pertencente ao município de Ribeira do Pombal, no norte da Bahia, Valmir Américo de Souza iniciou sua jornada em uma Itabuna bem diferente da atual. Era 05 de maio de 1951 quando ele chegou à cidade, que na época contava com aproximadamente 42 mil habitantes, um cenário em crescimento que se tornaria o palco principal de toda a sua história.
A chegada ao novo lar trouxe também os desafios imediatos da sobrevivência, exigindo um amadurecimento precoce diante das dificuldades econômicas da época. Sem conseguir concluir os estudos regulares antes da mudança por conta das necessidades urgentes da vida prática, Valmir precisou encontrar espaço entre as duras jornadas de trabalho para se dedicar aos livros. Sua persistência educacional ganhou forma no Instituto São José, onde cursou o primário, avançando mais tarde para as salas de aula do Maria Goretti e, finalmente, consolidando sua formação técnica no Colégio Comercial.
Antes de se estabelecer de forma definitiva no ambiente corporativo urbano, o dinamismo de Valmir se manifestou em diferentes frentes de trabalho na próspera região cacaueira. Por longos anos, ele dominou a arte de confeccionar e consertar sapatos atuando como sapateiro dedicado, além de trabalhar diretamente como comerciante nas feiras livres de Itabuna, Ilhéus e outros municípios vizinhos.
Em paralelo à agitação do comércio popular, ele administrou duas pequenas propriedades rurais, dividindo sua atenção entre o cultivo de uma roça de seringueira e outra de cacau.
A grande virada profissional coincidiu com a própria modernização e reorganização do espaço urbano local. Quando a tradicional feira livre foi transferida das imediações do antigo SESP, na Avenida Amélia Amado e no Canal Lava Pés, para o recém-criado Centro Comercial, Valmir enxergou uma oportunidade de ouro para mudar de patamar. Unindo forças com o hoje saudoso José Neto, que já era um conhecido comerciante de artigos voltados para sapateiros, ele fundou no ano de 1973 a emblemática Jandaia Calçados.
O novo empreendimento não demorou a provocar uma verdadeira revolução nas engrenagens do varejo de Itabuna, subvertendo as regras tradicionais de financiamento. A Jandaia Calçados implementou um sistema inovador onde a confiança mútua valia muito mais do que burocracias pesadas ou garantias bancárias formais. O crédito era concedido de forma imediata através de uma ficha simples, que demandava apenas breves anotações manuscritas e o devido registro do nome de quem havia apresentado o novo cliente ao estabelecimento.
Essa política de extrema proximidade criou um vínculo tão profundo com a comunidade que as facilidades de compra passaram a fazer parte do cotidiano familiar dos clientes. A palavra de um comprador antigo tinha peso de documento, bastando enviar um parente para que o atendimento fosse realizado sem qualquer restrição ou checagem extra. Essa dinâmica espontânea ficou eternizada na memória coletiva regional através da clássica recomendação das mães aos seus filhos: “Menino, passe na Jandaia Calçados e diga a Seu Valmir que fui eu quem mandei você comprar, e que depois eu passo lá para acertar”. Era o retrato fiel de tempos saudosistas marcados pela honestidade pura.
A engrenagem desse sucesso comercial marcante não girava sozinha e dependia diretamente de um grupo de funcionários que dividiam com o fundador o mesmo padrão de dedicação ao público. O cotidiano dinâmico da loja ganhou vida através do empenho de colaboradores excelentes que se tornaram figuras fundamentais na consolidação da marca. É impossível resgatar a biografia desse estabelecimento sem destacar a contribuição essencial de nomes como Demir Nascimento, Evelyn, Antônio Claro, conhecido popularmente como Tonho, Neuma Reis, Eliene Bahia, Gilvan Farias, Zé Luís, João Garrincha e Orlane Marques.
Após mais de duas décadas de liderança ativa e consagração no mercado, Valmir tomou uma decisão surpreendente que revelou seu desapego material e sua visão coletiva. No ano de 1995, ao alcançar a oportunidade de se aposentar, ele optou por se afastar da gestão e entregou o controle total da Jandaia Calçados diretamente para as mãos de seus funcionários. Essa transição surpreendente, contudo, não significou o fim de sua atividade profissional, pois logo em seguida ele passou a trabalhar ao lado de um filho, mantendo uma rotina produtiva que perdura até os dias atuais, mostrando que ele não se cansa.
Longe dos balcões comerciais, a vida pessoal do comerciante também foi marcada por movimentos intensos e dividida em dois capítulos familiares distintos e populosos. Seu primeiro casamento foi construído ao lado da senhora Lalá, uma união de cumplicidade que gerou seis filhos biológicos e ainda se expandiu com a adoção e criação de mais uma filha. Anos mais tarde, Valmir arrefeceu sua caminhada afetiva em um segundo matrimônio com a senhora Urânia Silva, com quem teve mais dois filhos, ampliando seu legado familiar.
Com uma trajetória que se confunde diretamente com a evolução da própria cidade do sul baiano, Valmir se consolidou como uma verdadeira testemunha ocular do crescimento regional. Ele acompanhou de perto as comemorações históricas do cinquentenário e do centenário de emancipação de Itabuna, acumulando memórias vivas de uma terra que ajudou a calçar com dignidade. Hoje, esbanjando uma vitalidade contagiante, o veterano comerciante faz planos ousados para o futuro e pretende participar ativamente da grande celebração dos 150 anos do município.












